sábado, 4 de agosto de 2012

Uma viagem para dentro de você.

         A viagem até Odessa levaria ainda uma meia hora, mesmo às duas da manhã. Sobre o banco de couro branco de seu jaguar XJ estava o ipad que ela acabara de usar. Era fascinante como aquele aparelho reunia tudo que ela precisava: internet, mapas, livros, bolsa de valores e ponto de scrying. Com o endereço fornecido pelo guardião + o googlemaps eu pude visualizar a rua pelo satélite e por magia. Segundo ele esse sangue-suga em especial pertencia à um clã que se aproveita da sombras e da ocultação. Teria que ir até lá, não tem outro jeito.

        - Mohamed, tem certeza que já se curou desse ombro?
        - Pronto para a briga.
        - Não viemos aqui para brigar, muito menos explodir as coisa. Lembre-se do plano.
        - Sim senhora.

        Nova Yorque sempre foi seu lar. Conhecia muito bem essa cidade. Enquanto rodava pelas pontes da cidade lembrava da infância pobre no Bronx, marcada por um pai alcoólatra, da mãe que morreu doente por não ter dinheiro para comprar os caros remédios contra o HIV. Foi aí que descobriu o quanto é ruim ser pobre e que um dia viraria o jogo.
          Sua vida começou a mudar quando aprendeu, na  obra social, um de seus grandes talentos: produzir jóias. Ela descobriu uma facilidade natural em confeccionar, concertar, forjar e até planejar esses objetos de valor. Era tão boa que pode custear sua faculdade de economia e garantir um emprego em uma grande rede de joalherias. Pode então alugar um pequeno apartamento em Manhattan e antes de se formar já era assistente pessoal do judeu que controlava a empresa. Claro que isso não veio só do seu talento; para subir às vezes precisamos usar vários tipos de degraus, o talento pode até ser um deles, mas a ambição, o sofá do escritório do chefe e a cabeça de seus concorrentes são tão válidos quanto.
         Em cinco anos na empresa já havia tomado para sí a administração do grupo e o posto de esposa do dono da empresa. Teve a sorte de ter um chefe viúvo, pena que a finada esposa teve tempo de parir aquela fedelha antes de morrer.  A pirralha deveria ter uns 10 ou 11 anos quando me casei com o judeu. Tive que me converter, mas não foi um sacrifício tão grande assim para ser aceita entre os amigos dele, que só me aceitaram mesmo quando os investimentos, aquisições e manobras fiscais que eu propus fizeram o patrimônio de minha nova família ir de 100 para 500 milhões de dólares. 
       Foi aí que minha vida mudou de novo. Um dia descobri a senha do cofre da biblioteca de forma muito estranha parecia que meu marido sussurrava os números, mas seus lábios não se moviam, até porque ele estava dormindo. Desci as escadas naquela noite e abri o cofre. Apenas documentos eram guardados ali. Ao abrir a porta vi o testamento do velho. Ao abrir o lacre sem rompê-lo veio a fúria: depois de quase 8 anos e dois bilhões de dólares que proporcionei aquele velho desgraçado a sua principal herdeira era nada menos que Izabella! E ainda citava uma outra mulher, chefe da filial holandesa, que só poderia ser uma amante! A raiva foi insuportável, tive vontade de gritar e quebrar a casa toda, aquilo foi tão forte que me levou ao inferno - literalmente.
        E o diabo estava lá para me saudar. Diante do vale da flagelação o diabo me conduziu até sua morada, a torre do guante de ferro. 

        - O que te trouxe até aqui, Jéssica? 
        - Raiva; injustiça; vingança.
        - Deve ter sido bem forte para romper a malha que reveste o universo. O que você faria para corrigir essa injustiça?
       - Qualquer coisa. 


      Neste momento o diabo abriu um grande sorriso.


     - Eu posso te ajudar. Posso fazer com que a realidade se curve diante de seus desejos. Que seus sonhos se tornem realidade. Basta aceitar a minha dádiva.
    - Pois eu aceito.
    - Não vai nem perguntar o que eu quero em troca?
    - Não.
    - Pois muito bem. Pegue este cinsel. E na base daquela torre escreva aquele que será teu nome daqui para a frente: ASHANTI, que na língua do dragão significa a vingança rubra. Entalhe o nome que vai te garantir a manipulação da mente, do destino e até da magia em si. Entalhe seu novo nome e daqui para frente sempre usará o vermelho, para lembrar a todos que terrível é a sua fúria.


        E assim ela fez sem se importar com o preço que pagaria, ela talhou seu nome. Ao terminar, virou de costas o inferno sumiu. Estava de volta na biblioteca. Guardou o envelope e repôs o lacre.
        Na manhã seguinte eu podia ouvir os pensamentos de todos naquela casa, sentir o rumo que o destino tomaria e vi que o mundo era um lugar totalmente diferente quando visto com os olhos da magia.
        Infelizmente haviam outros como eu. Fizeram questão de me levar a um lugar em um galpão nojento perto das docas onde encontrei uma coreana de cabelos tão ruivos quanto os meus. De alguma forma sabia que não eram tingidos,  mesmo na penumbra.
     
         - Boa noite, Ashanti.
         - Como sabe este nome?
         -  O diabo me contou. Ele me disse que nos tornaríamos grandes amigas.
         - Você é como eu?
        - Me diga você. O que você vê quando me olha?
        - Poder, ambição, tédio.
        - Boa menina. Estava esperando por esse momento a algum tempo.
        - Posso te ajudar a cuidar do seu marido e te dar umas dicas de como se dar bem na nova sociedade que se apresentará em breve diante de você.
       - E o que eu preciso fazer para garantir a "dádiva" da sua amizade?
       - Um favorzinho bem pequenininho. Envolve uma filmagem  e a entrega de um certo DVD em uma certa casa.
       - E por que esses dois idiotas que me trouxeram aqui não podem fazer isso para você?
       - Porque, como você já descobriu, eles são uns idiotas, amanhã nem vão se lembrar que estiveram aqui.
       - OK. O que devo fazer?
      - Uma coisa de cada vez. Amanhã um carro irá até sua casa e entregará um convite para comparecer a uma certa reunião. Ao pegar o envelope saberá que não pode recusar e será compelida a comparecer.
      - Vão te apresentar um monte de gente chata que se acha acima do bem e do mal e te empurrar um monte de regras. Finja estar honrada e aceite tudo de bom grado. Vão te designar uma tutora e te arrastar para um grupo com outros magos. Finja ser amiga deles. A pessoa que vai te treinar é minha escolhida. Ela pertence a outro grupo dentro da política dos magos. Ninguém pode saber que eu somos "amigas". Entendeu?
      - Sim. Quer dizer que agora sou um tipo de bruxa? 
      - Não, você é uma mastigos, as bruxas dos contos de fada teriam medo de você.
      - Quando chegar a hora eu vou te contatar.
      - OK. Poso ir agora?


       Seis meses aprendendo a usar meus novos dons, uma gravação comprometedora depois e eu finalmente pude voltar a cuidar dos meus problemas.  Manipulei a vontade de meu marido a escrever um novo testamento. Minha "amiga" me ensinou a cobrir meus rastros mágicos. Depois aproveitei uma viagem que fizemos de helicóptero para enfeitiçar o piloto: da próxima vez que meu marido estivesse sozinho com ele nas alturas uma onda de choque psíquica estouraria os vasos sanguíneos de seu cérebro. A coreana maldita me disse que isso passaria por um derrame na autópsia. 
       Fingi estar interessada em um evento de moda e meu querido marido teve que voltar sem mim naquela noite. Pobrezinho...
       Houve uma investigação é claro, tanto pela polícia dos humanos quanto pelos guardiões do véu. Felizmente minha querida "amiga" foi encarregada pessoalmente de conduzir os trabalhos. Não fui sequer acusada formalmente de nada. Só aquela fedelha inconveniente desconfiava de mim.

      Desde então tudo vem dando certo: patrimônio bilionário, membro exemplar da escadaria  de prata, ganhei até um sonâmbulo leal em uma data não menos improvável que o 11 de setembro de 2001. Quem diria que esse muçulmano de merda ficaria tão bêbado na véspera do ataque que não conseguiria levantar da cama para fazer aquela besteira? E que o avião que ele deveria conduzir foi justo aquele que não acertou seu alvo? Nada como os prazeres ocidentais e ter o rabo prezo para assegurar a lealdade de alguém...


    - Estamos quase chegando à tal loja, madame.
    - Encoste o carro. Daqui para frente eu assumo.


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