quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O sangue que cega a alma

   O sangue em seu rosto o cegava. A dor era insuportável, mas não vinha da ferida em seu rosto que quase arrancou seu olho, e sim da desgraça de ser derrotado e humilhado pelo seu próprio aprendiz. Acordou todo suado mais uma vez. Essa cena se repetia em seus pesadelos, não conseguiria mais dormir. Levantou da cama de concreto onde dormia e foi até seu pequeno arsenal.
   Muitas espadas, facas, lanças e até armas de fogo ele tinha ali, todas tiradas de seus inimigos derrotados. Pegou uma katana e começou a afiá-la. Era uma espada muito boa, feita por um dos melhores armeiros do Japão, mas nem se comparava à sua Zanpakuto, que agora deveria estar nas mãos de seu antigo aprendiz. A luz era fraca, pois o gerador do pequeno bunker onde se sempre se refugiou nas horas de dificuldade estava velho e precisando ser trocado, o gatilho que fizera na noite passada não duraria muito tempo. Sempre afiava suas lâminas com uma pedra simples, nada de esmeril elétrico. Dessa forma podia usar sua visão mágica para detectar as imperfeições do metal e corrigi-las, além de tirar de foco seus problemas iminentes.  Há um mês ele era um sábio adamantino, o quinto na hierarquia da Ordem do Tigre - o maior monastério da Seta Adamantina. Localizado nas montanhas do Tibet treinava novos adeptos há mais de mil anos. Seus muros eram mais altos e largos que a famosa muralha da china, seus campos mais férteis que as planícies muitos quilômetros abaixo, não precisávamos esconder nossa arte dos aldeões, que há muitas gerações viviam sob nossa proteção. Além de treinar os mais jovens também guardávamos ali os maiores tesouros da ordem, deixados há muito tempo pelos artífices da garra do dragão. Agora as muralhas estavam no chão, os aldeões estavam mortos, os campos foram queimados e os tesouros foram roubados. E era tudo sua culpa.
   Lembrou-se do dia que Malafaia se juntou a eles. Naquela época era responsável pela seleção dos novos integrantes do legado. O rapaz era americano ou canadense, não lembrava muito bem (sempre achou que os acidentais fossem todos iguais), mas lutava melhor que todos os outros candidatos. Claro que isso não bastava, mas os outros testes de magia, mente e astúcia, só confirmaram que o rapaz era o melhor, perfeito até demais. Com o tempo o rapaz foi ganhando a confiança de todos alí até o Mestre Amon gostava dele. Quem iria imaginar que ele era um Banisher? Nunca ninguém se infiltrou tão intimamente em nossa ordem. Foi ele que fez a recomendação para que o rapaz se tornar o novo ajudante do Guardião das Garras do Dragão - responsável pela guarda do cofre mais seguro já criado. Mas todo cofre tem uma chave e se você entrega a chave na mão do ladrão, fica difícil. Quando a horda de demônios destruiu as muralhas ninguém ouviu os gritos do Guardião sendo cortado ao meio por quem deveria auxilia-lo a proteger os artefatos. Fui o primeiro a chegar, mas toda a minha habilidade em mais de 20 anos servindo a Irmandade dos Ventos Demoníacos foi insuficiente para deter quem deveria ter menos experiência que eu. Ganhei uma perfuração no abdome, uma cicatriz no rosto e perdi minha Zanpakuto. Se tivesse morrido seria com honra, defendendo meus irmãos e irmãs, mas o desgraçado me deixou viver. Mestre Amon o culpou por falhar, rebaixou seu status e ordenou que não retornasse até ter de volta os mais perigosos tesouros de sua ordem - artefatos que nunca deveriam ser usados. Claro que a cabeça de Malafaia (ou seja lá qual for o seu nome) também traria imensa satisfação.
   Tentou meditar para acalmar sua ira, mas não conseguiu e resolveu tentar novamente o ritual. Malafaia estava muito bem guardado e isso não funcionou com ele, mas o bastardo deixou uma "pegada" o grimório com a invocação que trouxe a horda infernal. Só um banisher para deixar algo assim para traz. Saiu pela porta do bunker em direção à floresta. Aquela porta não era aberta há anos, pois ele não precisava disso para entrar ali, e teve dificuldade para remover a pesada barra de aço que selava a única entrada para seu sanctum. Em uma clareira próxima traçou as runas com sal grosso no chão. Ao começar os encantamentos convocou a energia da Torre do Guante de Ferro ordenando seus conhecimentos de tempo e destino para que localizassem as inter-relações presentes naquele livro demoníaco. Ao final de duas horas de invocações localizou um estabelecimento na cidade de Nova Yorque. Já esteve naquela cidade uma vez, tem uma amiga muito próxima lá e pelo que sabia um de seus irmãos estava por lá em busca "do que era um e agora são muitos".
   Voltou para seu refúgio, pegou a espada que antes afiara e sua mochila. Que horas deveriam ser do outro lado do mundo? Poderia responder essa pergunta com um simples truque, mas estava ansioso demais para prosseguir. Recolocou a barra de ferro, desligou o gerador e reativou os explosivos (se alguém aparecesse por ali sem saber desse truque não duraria muito tempo). Se concentrou naquele parque que fica no meio da ilha principal da cidade e com um simples pensamento percorreu os 10.000 km que separam o Camboja de NY.
   A caçada  está apenas começando.

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