sábado, 4 de agosto de 2012

Uma viagem para dentro de você.

         A viagem até Odessa levaria ainda uma meia hora, mesmo às duas da manhã. Sobre o banco de couro branco de seu jaguar XJ estava o ipad que ela acabara de usar. Era fascinante como aquele aparelho reunia tudo que ela precisava: internet, mapas, livros, bolsa de valores e ponto de scrying. Com o endereço fornecido pelo guardião + o googlemaps eu pude visualizar a rua pelo satélite e por magia. Segundo ele esse sangue-suga em especial pertencia à um clã que se aproveita da sombras e da ocultação. Teria que ir até lá, não tem outro jeito.

        - Mohamed, tem certeza que já se curou desse ombro?
        - Pronto para a briga.
        - Não viemos aqui para brigar, muito menos explodir as coisa. Lembre-se do plano.
        - Sim senhora.

        Nova Yorque sempre foi seu lar. Conhecia muito bem essa cidade. Enquanto rodava pelas pontes da cidade lembrava da infância pobre no Bronx, marcada por um pai alcoólatra, da mãe que morreu doente por não ter dinheiro para comprar os caros remédios contra o HIV. Foi aí que descobriu o quanto é ruim ser pobre e que um dia viraria o jogo.
          Sua vida começou a mudar quando aprendeu, na  obra social, um de seus grandes talentos: produzir jóias. Ela descobriu uma facilidade natural em confeccionar, concertar, forjar e até planejar esses objetos de valor. Era tão boa que pode custear sua faculdade de economia e garantir um emprego em uma grande rede de joalherias. Pode então alugar um pequeno apartamento em Manhattan e antes de se formar já era assistente pessoal do judeu que controlava a empresa. Claro que isso não veio só do seu talento; para subir às vezes precisamos usar vários tipos de degraus, o talento pode até ser um deles, mas a ambição, o sofá do escritório do chefe e a cabeça de seus concorrentes são tão válidos quanto.
         Em cinco anos na empresa já havia tomado para sí a administração do grupo e o posto de esposa do dono da empresa. Teve a sorte de ter um chefe viúvo, pena que a finada esposa teve tempo de parir aquela fedelha antes de morrer.  A pirralha deveria ter uns 10 ou 11 anos quando me casei com o judeu. Tive que me converter, mas não foi um sacrifício tão grande assim para ser aceita entre os amigos dele, que só me aceitaram mesmo quando os investimentos, aquisições e manobras fiscais que eu propus fizeram o patrimônio de minha nova família ir de 100 para 500 milhões de dólares. 
       Foi aí que minha vida mudou de novo. Um dia descobri a senha do cofre da biblioteca de forma muito estranha parecia que meu marido sussurrava os números, mas seus lábios não se moviam, até porque ele estava dormindo. Desci as escadas naquela noite e abri o cofre. Apenas documentos eram guardados ali. Ao abrir a porta vi o testamento do velho. Ao abrir o lacre sem rompê-lo veio a fúria: depois de quase 8 anos e dois bilhões de dólares que proporcionei aquele velho desgraçado a sua principal herdeira era nada menos que Izabella! E ainda citava uma outra mulher, chefe da filial holandesa, que só poderia ser uma amante! A raiva foi insuportável, tive vontade de gritar e quebrar a casa toda, aquilo foi tão forte que me levou ao inferno - literalmente.
        E o diabo estava lá para me saudar. Diante do vale da flagelação o diabo me conduziu até sua morada, a torre do guante de ferro. 

        - O que te trouxe até aqui, Jéssica? 
        - Raiva; injustiça; vingança.
        - Deve ter sido bem forte para romper a malha que reveste o universo. O que você faria para corrigir essa injustiça?
       - Qualquer coisa. 


      Neste momento o diabo abriu um grande sorriso.


     - Eu posso te ajudar. Posso fazer com que a realidade se curve diante de seus desejos. Que seus sonhos se tornem realidade. Basta aceitar a minha dádiva.
    - Pois eu aceito.
    - Não vai nem perguntar o que eu quero em troca?
    - Não.
    - Pois muito bem. Pegue este cinsel. E na base daquela torre escreva aquele que será teu nome daqui para a frente: ASHANTI, que na língua do dragão significa a vingança rubra. Entalhe o nome que vai te garantir a manipulação da mente, do destino e até da magia em si. Entalhe seu novo nome e daqui para frente sempre usará o vermelho, para lembrar a todos que terrível é a sua fúria.


        E assim ela fez sem se importar com o preço que pagaria, ela talhou seu nome. Ao terminar, virou de costas o inferno sumiu. Estava de volta na biblioteca. Guardou o envelope e repôs o lacre.
        Na manhã seguinte eu podia ouvir os pensamentos de todos naquela casa, sentir o rumo que o destino tomaria e vi que o mundo era um lugar totalmente diferente quando visto com os olhos da magia.
        Infelizmente haviam outros como eu. Fizeram questão de me levar a um lugar em um galpão nojento perto das docas onde encontrei uma coreana de cabelos tão ruivos quanto os meus. De alguma forma sabia que não eram tingidos,  mesmo na penumbra.
     
         - Boa noite, Ashanti.
         - Como sabe este nome?
         -  O diabo me contou. Ele me disse que nos tornaríamos grandes amigas.
         - Você é como eu?
        - Me diga você. O que você vê quando me olha?
        - Poder, ambição, tédio.
        - Boa menina. Estava esperando por esse momento a algum tempo.
        - Posso te ajudar a cuidar do seu marido e te dar umas dicas de como se dar bem na nova sociedade que se apresentará em breve diante de você.
       - E o que eu preciso fazer para garantir a "dádiva" da sua amizade?
       - Um favorzinho bem pequenininho. Envolve uma filmagem  e a entrega de um certo DVD em uma certa casa.
       - E por que esses dois idiotas que me trouxeram aqui não podem fazer isso para você?
       - Porque, como você já descobriu, eles são uns idiotas, amanhã nem vão se lembrar que estiveram aqui.
       - OK. O que devo fazer?
      - Uma coisa de cada vez. Amanhã um carro irá até sua casa e entregará um convite para comparecer a uma certa reunião. Ao pegar o envelope saberá que não pode recusar e será compelida a comparecer.
      - Vão te apresentar um monte de gente chata que se acha acima do bem e do mal e te empurrar um monte de regras. Finja estar honrada e aceite tudo de bom grado. Vão te designar uma tutora e te arrastar para um grupo com outros magos. Finja ser amiga deles. A pessoa que vai te treinar é minha escolhida. Ela pertence a outro grupo dentro da política dos magos. Ninguém pode saber que eu somos "amigas". Entendeu?
      - Sim. Quer dizer que agora sou um tipo de bruxa? 
      - Não, você é uma mastigos, as bruxas dos contos de fada teriam medo de você.
      - Quando chegar a hora eu vou te contatar.
      - OK. Poso ir agora?


       Seis meses aprendendo a usar meus novos dons, uma gravação comprometedora depois e eu finalmente pude voltar a cuidar dos meus problemas.  Manipulei a vontade de meu marido a escrever um novo testamento. Minha "amiga" me ensinou a cobrir meus rastros mágicos. Depois aproveitei uma viagem que fizemos de helicóptero para enfeitiçar o piloto: da próxima vez que meu marido estivesse sozinho com ele nas alturas uma onda de choque psíquica estouraria os vasos sanguíneos de seu cérebro. A coreana maldita me disse que isso passaria por um derrame na autópsia. 
       Fingi estar interessada em um evento de moda e meu querido marido teve que voltar sem mim naquela noite. Pobrezinho...
       Houve uma investigação é claro, tanto pela polícia dos humanos quanto pelos guardiões do véu. Felizmente minha querida "amiga" foi encarregada pessoalmente de conduzir os trabalhos. Não fui sequer acusada formalmente de nada. Só aquela fedelha inconveniente desconfiava de mim.

      Desde então tudo vem dando certo: patrimônio bilionário, membro exemplar da escadaria  de prata, ganhei até um sonâmbulo leal em uma data não menos improvável que o 11 de setembro de 2001. Quem diria que esse muçulmano de merda ficaria tão bêbado na véspera do ataque que não conseguiria levantar da cama para fazer aquela besteira? E que o avião que ele deveria conduzir foi justo aquele que não acertou seu alvo? Nada como os prazeres ocidentais e ter o rabo prezo para assegurar a lealdade de alguém...


    - Estamos quase chegando à tal loja, madame.
    - Encoste o carro. Daqui para frente eu assumo.


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

The strawberry and the sugar cane.

         O carro trafegava pelas lentas ruas de Manhattan. Embora o trânsito aqui piorasse  consideravelmente no inverno os semáforos favoreciam a passagem de seu jaguar vermelho que se destacava contra a neve que caiu na noite anterior. Seu fiel Mohamed dirigia o sedam automático (mesmo com um braço na tipóia) e em pouco tempo chegaram ao seu destino. O bistro era o point dos feiticeiros da cidade, não gostava de lidar com outros magos nem de se meter com seus assuntos, mas naquela noite ela precisava. Quando o carro parou o motorista abriu a porta com seu braço bom e ela saíu com seu sobretudo de couro vermelho forrado com pele de urso polar, um escândalo com os ambientalistas. Usava várias jóias de rubi pelo corpo: uma gargantilha com uma pedra de mais ou menos 4 cm, seus brincos, pulseira e anel completavam o conjunto. Se  fossem jóias de verdade valeriam mais de um milhão, mas aquelas eram especiais. Foram feitas com mana, o combustível mágico para seus feitiços mais poderosos.
       A fachada era discreta e a decoração era muito "clean" para seu gosto, gostava de coisas mais suntuosas. Quando entrou a recepcionista logo foi falar com ela e pegar o seu casaco. Era uma menina morena, uns 22 anos no máximo. Linda. Olhos azuis da cor do mar, certamente escolhida a dedo no sofá pelo demônio.

        - Senhora Ashanti, a senhora não fez reserva... Me desculpe, mas estamos com a casa cheia esta noite...
        - Olhe de novo, menina, e vai perceber que está errada.

          Neste momento outra recepcionista chegou e falou algo no ouvido da colega. Essa tinha o nariz meio torto e as mamas bem fláscidas, aparentava ter alguma inteligência, certamente não foi escolhida pelo demônio. Foi então que a morena resolveu falar:

           - Desculpe a demora, a senhorita Paige já está de saída e a mesa VIP vai ser preparada para a senhora em um instante. Sem falar nada Ashanti sentou-se na área de espera junto ao bar.

          - O que vai beber senhora?
          - Quero aquele drink brasileiro que faz tanto sucesso por aqui.
          - Limão?
          - Não, morango. Com aquele aguardente que seu chefe toma aos montes, não suporto vodika. Bastante açúcar.
          - Sim senhora.

           Muito de seus colegas despertos estavam ali naquela noite, especialmente os membros da cabala que possuía o lugar. Nunca se interessou muito por eles e, a pesar do acontecimentos recentes, só conhecia alguns. O mais famoso era sem dúvida o demônio. Jovem, bonito,tão rico quanto ela, mesma senda e ordem. Fariam um casal perfeito se ele não fosse o maior canalha que ela já conheceu, não conseguia manter aquele negocinho dele dentro das calças, se achava superior a todos e se dizia o líder dessa cabala. Pobre diabo, no fundo era só mais um peão e ainda  achava que estava mandando.
            Outro membro de destaque era a bela silvícola. Nativa do Peru ou da Bolívia essa jovem contrariou as probabilidades e nasceu bonita. Sua aparência inocente escondia sua vocação: juiz e juri dos assuntos mágicos. Se fosse mais inteligente dominaria rapidamente seus colegas. Ou seria esse o jogo dela? Se fingir de ignorante? Esperava nunca descobrir.
           No entanto aquele que mais chamava sua atenção era o bombeiro. Que homem. Pena que ele não estava ali agora. Enquanto imaginava o que faria com ele e com a recepcionista morena em sua cama, a bebida chegou. Estava deliciosa, como de costume. Pensava seriamente em contratar esse barman. Logo logo a recepcionista a chamou:

      - Sua mesa está pronta, senhora Ashanti.

       Sem dizer nada a bruxa levantou e acompanhou a menina. A mesa VIP ficava em um local mais reservado, no andar de cima, onde podia ver o movimento dos frequentadores sem ser incomodada. O garçom trouxe a bebida que  fora servida no bar e lhe entregou o menu. Ele tinha o cheiro daquele aguardente usado em seu drink; nem seu pai alcoólatra cheirava tão forte de bebida. Foi então que ela percebeu de quem se tratava.
       O homem a sua frente era velho, feio, magro e se vestia com um terno branco encardido. Era o verdadeiro líder da cabala mais famosa da cidade.

      - Não vai sentar-se, a casa é sua.  O velho sentou-se e não disse nada
      - Gostei do seu perfume, lembra minha infância.
      - Sabe, não acho que você veio aqui para falar-mos de mim, não é Ashanti?
      - Verdade. Meu contato no GV disse que só você poderia me ajudar.
      - Talvez. O que você quer?
      - Isso você sabe muito bem, aquela incompetente que diz trabalhar para mim me espiona há anos. Aposto que ela te contou até a cor da minha calcinha.
     - É vermelha, mas não preciso de uma espiã para saber isso.
     - Acho que não. Mas então, voltando ao nosso assunto...
     - Sim eu sei onde pode encontrar o vampiro. Ele veio de Moscou e está controlando a sua enteada.
     - Que novidade, aquela pirralha descuidada que já provou todo lixo que um traficante pode fornecer finalmente encontrou o barato supremo: vitae.
     - Sim. E ela agora quer te botar na cadeia de vez por causa daquele pequeno infortúnio com o pai dela. Ela acha que você tem alguma coisa haver com isso, não é um absurdo?
     - Claro que é. Foi a sua ordem que investigou o caso e nada foi provado. Sou inocente, mas não vou deixar aquela fedelha entregar meus milhões na mão de um vampiro esperto. Onde ele está?
    - Você sabe que tudo tem um preço, não sabe?
    - Sério? Eu vim aqui confiando na bondade do seu coração.
    - Preciso de duas moedas de ouro.
    - Sabe que minhas especialidades são diamantes e rubis; verdadeiros ou de mana, mas eu posso conseguir facilmente. Não pensei que você se interessasse por ouro. E por que só duas?
   - Isso já não é da sua conta. O importante é que você mesma cunhe as moedas e que elas tenham a ressonância de vida. Meu colega Mark vai entrar em contato e te dar os detalhes. Ninguém pode saber de nada. Pode fazer isso?
   - Claro. Agora onde está o vampiro?
   - Muito bem, vou te falar, mas o que quer que aconteça com ele a responsabilidade é sua, não tive nada haver com isso. Se chamar muita atenção não vou poder segurar o GV, estamos de acordo?
  - Sim.
  - Ótimo, agora escute com atenção...


Mais um Estorvo.

        Do alto de sua torre a bruxa podia ver toda a Ilha de Manhattan. O sol acabava de nascer. O Central Park ficava a seus pés. Ela gostava das coisas aos seus pés, especialmente os homens. Sua lingerie vermelha não protegia seu corpo do vento gélido que vinha da janela que ela acabara de abrir. Gostava do frio e quando parou de sentir seu nariz, fechou a janela. Duas batidas em sua porta. Seu fiel Mohamed diz:

        - Senhora, a estilista está lhe aguardando no outro quarto.

      Do jeito que estava a bruxa passou por Mohamed e foi em direção ao quarto de 50 metros quadrados que lhe servia de closet. Ao passar fingiu não reparar os olhares gulosos do seu guarda-costas pelo seu corpo escultural. Já estava acostumada e fazia parte do encanto que ela exercia e que o dominava. Ao chegar a estilista já lhe aguardava há um bom tempo.

       - Podemos começar - disse sem emoção.

         A mulher tomou suas medidas e mostrou suas idéias em um caderno de desenhos. Ashanti só usava roupas exclusivas da mais alta costura. Essa nova estilista estava em ascensão e gostava de usar novas tendências. Ao olhar os modelos notava que alguns não atendiam suas exigências.

       - Por que não há vermelho nestes aqui?
       - Vermelho não combina com essa estação, com as reviravoltas da moda você vai parecer super out com essa cor.
        - Essa é a primeira vez que você vem aqui e para que não seja a última é preciso que entenda uma coisa: eu uso o que está na moda, eu faço a moda. Meus modelos são copiados por celebridades e não o contrário.
       - Eu só visto roupas que tenham pelo menos algum detalhe vermelho.
       - Sim, senhora.
       - Ótimo.

      Neste momento alguém abre a porta sem bater. Era Izabella, uma herança indesejada de seu último marido

      - Oi "mãe".
      - Você, seu trabalho aqui acabou. Volte com os novos modelos semana-que-vem.
      - Olá Izabella. Veio me ameaçar outra vez?
      - Dessa vez eu tenho um mandado para a exumação do corpo do piloto, sua bruxa!
      - Sério, que juiz foi maluco de aceitar aquele laudo fajuto? Você sabe muito bem que seu pai morreu em um acidente com o helicóptero.
      - Dr. Dimitri discorda!
      - Esses peritos independentes se fossem bons mesmos trabalhariam no FBI e não para garotas paranóicas como você que tem dificuldade de aceitar a realidade.
      - Minta o quanto quiser, vadia, quero ver você rir quando eu provar que o piloto não teve um simples derrame.
      - Vejo que nem aquele colégio na Suíça te trouxe alguma inteligência, com certeza nenhuma educação, baseado nesse linguajar. Se eu tivesse envenenado o piloto ou coisa assim, o exame toxicológico feito durante a autópsia teria revelado alguma coisa, não?
     - Talvez, mas Dr  Dimitri diz que uma nova droga usada pelo serviço secreto de Israel ou manipulação psíquica poderiam ter feito o estrago.
     - Manipulação psíquica, kkkk, de onde você tirou esse agora? Roteirista de filme B?
     - Não ele trabalhou na KGB! Sabe tudo dessas coisa.
     - Ok, boa sorte. Só uma coisa me intriga, se eu fosse uma assassina, como você diz, eu não poderia simplesmente usar esse veneno ou psiquismo em você e acabar com todo esse estorvo?
     - Você se acha muito poderosa, mas eu agora tenho um amigo me protegendo. Ele é mais forte que esse seu Iraquiano aí.
    - Ele é afegão e não iraquiano, querida e mesmo se o seu namoradinho fosse mais forte que o Mohamed, dificilmente ele conseguiria se esquivar das balas.
    - Ele é muito mais que meu namorado, e ele pode fazer muito mais mais que escapar das balas desse aí. Ele me ama muito, é tudo para mim e quando você estiver apodrecendo atrás das grades eu vou poder pegar meu dinheiro de volta e viverei com ele para sempre!
    - Só nos seus sonhos, querida. Mohamed, por favor acompanhe a jovem Izabella para fora da minha casa, pois tenho assuntos mais importantes para resolver hoje.
    - Por aqui senhorita.
    - Tire suas mãos de mim, seu terrorista maldito!
    - Não me obrigue a... Arrgh!

     Nesse momento a bruxa sentiu uma breve tonteira quando a menina de 19 anos e 50 kg deslocou o ombro do seu segurança treinado nos campos da Al-Quaeda. Algum fenômeno sobrenatural foi responsável por isso. Ela imediatamente ligou seus sentidos especiais e pôde constatar manchas pálidas na aura da menina. Antes que Mohamed pudesse  se levantar e puxar a arma ela o deteve:

     - Tem tomado o que ultimamente? Essa força toda me parece incomum para uma menina do seu tamanho.
     - De onde veio isso tem muito mais e só não te quebro agora porque quero ver você pagar pelo que fez com a minha família, vadia!

    Quando a garota saiu batendo a porta, Mohamed se levantou com dificuldade:

    - Quer que eu vá atrás dela, Ashanti?
    - Para quê? Quer que ela te quebre outro osso?
    - Não sei como isso foi possível, eu...
    - Você vai procurar um médico e me deixar cuidar disso. Vá!

      Quando o homem saíu, Ashanti estava furiosa. Aquela garota sempre a irritou, só não acabou com ela antes porque os guardiões estavam de olho, mas essa história de amor eterno e força demais só podiam significar uma coisa: o sangue-suga estava de volta. Hora de lidar com ele pela última vez.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O sangue que cega a alma

   O sangue em seu rosto o cegava. A dor era insuportável, mas não vinha da ferida em seu rosto que quase arrancou seu olho, e sim da desgraça de ser derrotado e humilhado pelo seu próprio aprendiz. Acordou todo suado mais uma vez. Essa cena se repetia em seus pesadelos, não conseguiria mais dormir. Levantou da cama de concreto onde dormia e foi até seu pequeno arsenal.
   Muitas espadas, facas, lanças e até armas de fogo ele tinha ali, todas tiradas de seus inimigos derrotados. Pegou uma katana e começou a afiá-la. Era uma espada muito boa, feita por um dos melhores armeiros do Japão, mas nem se comparava à sua Zanpakuto, que agora deveria estar nas mãos de seu antigo aprendiz. A luz era fraca, pois o gerador do pequeno bunker onde se sempre se refugiou nas horas de dificuldade estava velho e precisando ser trocado, o gatilho que fizera na noite passada não duraria muito tempo. Sempre afiava suas lâminas com uma pedra simples, nada de esmeril elétrico. Dessa forma podia usar sua visão mágica para detectar as imperfeições do metal e corrigi-las, além de tirar de foco seus problemas iminentes.  Há um mês ele era um sábio adamantino, o quinto na hierarquia da Ordem do Tigre - o maior monastério da Seta Adamantina. Localizado nas montanhas do Tibet treinava novos adeptos há mais de mil anos. Seus muros eram mais altos e largos que a famosa muralha da china, seus campos mais férteis que as planícies muitos quilômetros abaixo, não precisávamos esconder nossa arte dos aldeões, que há muitas gerações viviam sob nossa proteção. Além de treinar os mais jovens também guardávamos ali os maiores tesouros da ordem, deixados há muito tempo pelos artífices da garra do dragão. Agora as muralhas estavam no chão, os aldeões estavam mortos, os campos foram queimados e os tesouros foram roubados. E era tudo sua culpa.
   Lembrou-se do dia que Malafaia se juntou a eles. Naquela época era responsável pela seleção dos novos integrantes do legado. O rapaz era americano ou canadense, não lembrava muito bem (sempre achou que os acidentais fossem todos iguais), mas lutava melhor que todos os outros candidatos. Claro que isso não bastava, mas os outros testes de magia, mente e astúcia, só confirmaram que o rapaz era o melhor, perfeito até demais. Com o tempo o rapaz foi ganhando a confiança de todos alí até o Mestre Amon gostava dele. Quem iria imaginar que ele era um Banisher? Nunca ninguém se infiltrou tão intimamente em nossa ordem. Foi ele que fez a recomendação para que o rapaz se tornar o novo ajudante do Guardião das Garras do Dragão - responsável pela guarda do cofre mais seguro já criado. Mas todo cofre tem uma chave e se você entrega a chave na mão do ladrão, fica difícil. Quando a horda de demônios destruiu as muralhas ninguém ouviu os gritos do Guardião sendo cortado ao meio por quem deveria auxilia-lo a proteger os artefatos. Fui o primeiro a chegar, mas toda a minha habilidade em mais de 20 anos servindo a Irmandade dos Ventos Demoníacos foi insuficiente para deter quem deveria ter menos experiência que eu. Ganhei uma perfuração no abdome, uma cicatriz no rosto e perdi minha Zanpakuto. Se tivesse morrido seria com honra, defendendo meus irmãos e irmãs, mas o desgraçado me deixou viver. Mestre Amon o culpou por falhar, rebaixou seu status e ordenou que não retornasse até ter de volta os mais perigosos tesouros de sua ordem - artefatos que nunca deveriam ser usados. Claro que a cabeça de Malafaia (ou seja lá qual for o seu nome) também traria imensa satisfação.
   Tentou meditar para acalmar sua ira, mas não conseguiu e resolveu tentar novamente o ritual. Malafaia estava muito bem guardado e isso não funcionou com ele, mas o bastardo deixou uma "pegada" o grimório com a invocação que trouxe a horda infernal. Só um banisher para deixar algo assim para traz. Saiu pela porta do bunker em direção à floresta. Aquela porta não era aberta há anos, pois ele não precisava disso para entrar ali, e teve dificuldade para remover a pesada barra de aço que selava a única entrada para seu sanctum. Em uma clareira próxima traçou as runas com sal grosso no chão. Ao começar os encantamentos convocou a energia da Torre do Guante de Ferro ordenando seus conhecimentos de tempo e destino para que localizassem as inter-relações presentes naquele livro demoníaco. Ao final de duas horas de invocações localizou um estabelecimento na cidade de Nova Yorque. Já esteve naquela cidade uma vez, tem uma amiga muito próxima lá e pelo que sabia um de seus irmãos estava por lá em busca "do que era um e agora são muitos".
   Voltou para seu refúgio, pegou a espada que antes afiara e sua mochila. Que horas deveriam ser do outro lado do mundo? Poderia responder essa pergunta com um simples truque, mas estava ansioso demais para prosseguir. Recolocou a barra de ferro, desligou o gerador e reativou os explosivos (se alguém aparecesse por ali sem saber desse truque não duraria muito tempo). Se concentrou naquele parque que fica no meio da ilha principal da cidade e com um simples pensamento percorreu os 10.000 km que separam o Camboja de NY.
   A caçada  está apenas começando.